Castelos de Areia e as Rupturas Necessárias Por Ricardo Pereira
Certo dia, peguei-me refletindo sobre o tempo que um ser humano dispende
em seu esforço de construir castelos de areia, assim como da sua
necessidade emergencial de promover as rupturas necessárias com algumas
de suas edificações pessoais.
Castelos,
até mesmo os de areia, podem apresentar dimensões bem relativas, pois
dependem da finalidade para os quais são construídos. Nesses termos,
inúmeras podem ser as complexidades de suas estruturas.

Muitos desses castelos são bem planejados, possuindo, aparentemente, solidez e pompas.
Por outro lado, alguns não possuem estruturas tão firmes, mas, não deixam de apresentar o seu charme e utilidade.
Podem, obviamente, ser construídos perto do mar, fincados em uma colina, à margem de um rio ou emergirem em pleno deserto.
Os estilos de edificação de alguns castelos de areia podem ser bem variados,
contemplando, certamente, enormes torres, longas passarelas, escadariassinuosas, amplos compartimentos, imensas portas, janelas suntuosas,
muralhas, passagens internas, algumas secretas e belos jardins.
Existem, claro, aqueles mais modestos, mas, efetivamente, protegem, muitas vezes, não só do outro, mas, também, de si mesmo.
Outros, nesse fantástico cenário de aparências, podem portar, em suas
torres, verdadeiras prisões onde se vivenciam os mais diversos horrores,
tanto físicos, quanto psíquicos, tornando-se edificações feias, frias e
sombrias.
Em sua abordagem sobre como o homem constrói os seus abrigos, enfatiza Bachelard (2003) :
[…] veremos a imaginação construir “paredes” com sombras
impalpáveis, reconfortar-se com ilusões de proteção – ou, inversamente,
tremer atrás de grossos muros, duvidar das mais sólidas muralhas. Em
suma, na mais interminável das dialéticas, o ser abrigado sensibiliza os
limites do seu abrigo. Vive-o em sua realidade e em sua virtualidade,
através do pensamento e dos sonhos […].
O esforço dispendido na construção de um castelo de areia
também é relativo, depende do tamanho do sonho de qualquer um e tão
somente de como, quando e onde se pretende chegar ao fim de sua
edificação, ou seja, o destino que as suas escadarias podem levar é
estabelecido por quem, objetiva ou subjetivamente, o construir.
Os recursos e ferramentas utilizados para a sua materialização podem
chegar a mais de mil, demandando os desafios da escolha, da seleção
daqueles que são mais necessários, requerendo, tais atividades uma
visão, um foco, um objetivo que não permita a ocorrência de erros
durante todo o processo de sua produção.
Interessante, que muitos desses castelos de areia não saem nem de nossa imaginação para o papel, e deste para o chão.
Outros, quando estão perto de ser finalizados, ou quando já prontos,
independentemente de nossos esforços, cuidados e orgulhos, são
arrebatados violentamente, sendo destruídos, em parte ou totalmente.
Nesse contexto, surgem as perguntas:
‘1 – onde foi que se errou durante o processo de construção desse castelo, para que ele tombasse tão facilmente?’
‘2- O que passou desapercebido pela visão de seu construtor, que não
oportunizou-lhe agir preventivamente no sentido de se evitar a sua
queda?
Após a experiência de se ver cair por terra, todos os conceitos que
fundamentaram certas verdades, a empáfia diante do outro, o poder
ilusório e o orgulho que trazem consigo a cegueira, assim como os muros
que foram construídos, em torno de si mesmo, em todo o tempo que se leva
na edificação de tais castelos de areia, emergem alguns sentimentos de
aturdimento, confusão e fracasso, conduzindo o indivíduo a uma espécie
de auto-percepção de sua intrínseca fragilidade, da sua incompetência
durante as suas construções terrenas, até, outro dia, indestrutíveis.
Ah, mas, mesmo assim, os castelos, mesmo sucumbidos, ainda falam! As
palavras jorram dos escombros que sobraram do abrigo, como em um
fenômeno catártico. Extraídos das profundezas da alma, exibem a natureza
dos encontros e desencontros da co-existência.
Nesse contexto, a sua destruição permite que se perceba que as suas
bases, as quais se acreditava serem sólidas, poderiam ruir a qualquer
momento, possibilitando a destruição de muitos dos sonhos, das certezas
infundadas e deixando, em meio aos destroços, aos seus vitimados, a dor,
o sofrimento, o lamento, a frustração, às vezes as doenças físicas,
psicológicas e espirituais e, sobretudo, a insegurança e, o pior, a
incerteza e a preocupação diante o porvir.
Nesse contexto, nus diante ao que pode ter sobrado (e a mercê das
energias emanadas pelo décimo sexto arcano maior, do Tarô, ‘A Torre’),
surge um lampejo, uma necessidade, sentida apenas por uns poucos, de
adentrar-se em uma espécie de auto-reflexão, em uma análise profunda de
si mesmo, daqueles valores equivocados, de uma reavaliação de algumas
atitudes e comportamentos torpes, daquelas visões e julgamentos
deturpados que se tem diante do mundo, da vida e dos outros.
Dessa forma, o indivíduo humano (que enxerga de longe a luz) se permite
uma quase milagrosa revisão de sua trajetória, dos seus planos, e é,
exatamente, nesse ponto que ele se dá a oportunidade da necessária
ruptura com determinados modelos dogmáticos, com aquelas relações que,
somente, induziram-no aos mais diversos equívocos, erros, perdas, não
agregando valor positivo algum ao dispendioso e desgastante trabalho de
construção de castelos de areia, ou seja, aos mal fadados projetos de
trabalho, de amor ou de vida há muito acalentados.
Desse modo, essas rupturas além de necessárias, permitem uma nova visão,
libertadora, mais crítica sobre um passado de desejos egocêntricos e
utópicos, tendo no presente o seu mais real produto ou conseqüência,
marcando o fim de uma fase de prejuízo, mas, de grandes aprendizados.
Nesse
contexto, eis que emerge um novo estágio, onde tudo poderá, se , de
fato, a lição tiver sido aprendida, ser construído novamente não mais
por meio de olhares míopes, restritos mas, com o auxílio de uma visão
mais ampla, que propicie às novas edificações, alicerces profundos ou
bases mais sólidas.
Esse novo ciclo, evidentemente propicia ao indivíduo, construções que o
proteja, quando necessário, mas, essas não poderão ser como as de
outrora, devendo, no entanto, apresentar, mesmo durante alguns momentos
de seu recolhimento, as suas portas e janelas sempre abertas à reflexão,
ao aprendizado, à transformação, ao compartilhamento de experiências, à
escuta do outro e à empatia.
Vale salientar, que nesse germinar de uma nova vida , em todas as suas
esferas, é fundamental que ele se permita à entrada do novo, de certo,
com o cuidado de atentar-se que até mesmo uma ESTRELA (o outro passo
após sua vivência em um atribulado arcano maior ‘A TORRE’) que não
apresentar consistência, também haverá de não se sustentar nos céus,
caindo na terra para transitar, inevitavelmente, pelas ruas da amargura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ICONOGRÁFICAS
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Trad. de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
CASTELO DE AREIA. Acessado em: www.raulgil.com.br
CASTELO DE NEUSCHWANSTEIN. Construído no século XIX pelo rei da Baviera, Alemanha, Ludwig II .
A TORRE. Vision Tarot.
A TORRE DE BABEL. Elder Bruegel (1525-1569).
A ESTRELA. Medieval Scapini Tarot.





